(Des) Construindo os seus demônios
- Ebert Vieira
- 6 de fev. de 2016
- 3 min de leitura
Muitas vezes quando assistimos à alguma programação evangélica, em especial aos cultos de grandes multidões, temos nossa atenção voltada para as sessões de descarrego, e os famosos espetáculos de “manifestações”: pessoas possuídas por demônios revelam numa voz animalesca suas ameaças, e o mal que essas criaturas são capazes de produzir na vida de uma pessoa. Essas entidades se apresentam como pomba-gira, exu maria padilha, exu tranca rua, exu caveira... Há uma infinidade de títulos, emprestados da Umbanda e Candomblé, e usados erroneamente, criando uma atmosfera de preconceito e ignorância. Afinal, quem são esses DEMÔNIOS?

A palavra demônio, do português, surgiu do latim dæmon, que por sua vez veio do grego daimon, que quer dizer espírito, gênio, inteligência. Para os gregos se tratava de um espírito que acompanhava uma pessoa, possuindo uma boa ou má índole a depender da sua relação com determinado indivíduo a que está sob a sua influência, havendo o eudaimon (o sufixo eu significando “bom”, “favorável”), e o kakodaimon (o sufixo kako com significado de “mal”).
Platão diz que Sócrates possuía o seu daimon, o seu mentor espiritual, que lhe transmitia mensagens e ensinamentos. Segundo este, o espírito fora “colocado sobre mim pela Divindade, pelos oráculos, pelos sonhos e por todos os outros meios pelos quais os decretos divinos são transmitidos ao homem”. Ou seja, não havia nenhuma imagem negativa relacionada à palavra daimon, isso só veio a acontecer um pouco mais tarde pela popularização do evangelho, cujo original foi escrito em grego, assim como o Novo Testamento, e em que havia muitas menções a daimons, a demônios. Jesus expulsava, afastava demônios. O historiador Flávio Josefo, que viveu na mesma época que Jesus, revela que demônios era como chamavam os espíritos dos homens perversos, espíritos atrasados, e não uma criatura à parte da criação, um ser sobrenatural.
Demônios são, portanto, os espíritos inferiores, errantes. Como Kardec bem explica em seu comentário n’O Livro dos Espíritos, na questão 131 - “Os homens fizeram com os demônios o mesmo que com os anjos. Da mesma maneira que acreditam na existência de seres perfeitos desde toda a eternidade, tomaram também os Espíritos inferiores por seres perpetuamente maus. A palavra demônio deve, portanto, ser entendida como referente aos Espíritos impuros, que freqüentemente não são melhores que os designados por esse nome, mas com a diferença de ser o seu estado apenas transitório. São esses os Espíritos imperfeitos que protestam contra as suas provações e por isso as sofrem por mais tempo, mas chegarão por sua vez á perfeição, quando se dispuserem a tanto. Poderíamos aceitar a palavra demônio com esta restrição. Mas, como ela é agora entendida num sentido exclusivo, poderia induzir em erro, dando margem á crença na existência de seres criados especialmente para o mal”.

As manifestações que acontecem nas igrejas, ou em qualquer outro lugar, podem ter causas diferentes. Podem ser simples encenações para atrair curiosos e dinheiro; podem ser manifestações anímicas, produzidas pelo próprio espírito encarnado que manifesta aspectos de uma ou várias personalidades que o médium animou em outras existências, pensando que está incorporado, possuído por um demônio, e que se apresenta pelo nome que inconscientemente associa à entidade ligada a esse tipo de manifestação; e, por último, podem ser manifestações mediúnicas, que são aquelas em que existe a influência de um espírito sobre o indivíduo, espírito este que, como dito anteriormente, é inferior, atrasado, primitivo.
Assim, não se deve seguir e propagar essa “onda mistificadora” repetida pela mídia e pelo povo, mas pensar racionalmente e baseado na literatura espírita acerca desses fenômenos que acontecem todos os dias nas igrejas evangélicas. Se houvesse um estudo racional encima desse tema, haveria uma imensa evolução espiritual no mundo, visto que o número de evangélicos só aumenta ao passar dos anos. Precisamos olhar os fatos que nos rodeiam com os olhos do espírito, sem as amarras da ignorância. Sem mistificar, demonizar.
Que se faça luz!
REFERÊNCIAS
Blog Terapia de Vidas Passadas
- https://hugolapa.wordpress.com/2010/01/07/o-daemon-de-socrates/ acesso em 28/01/2016
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Trad. de Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
Site da Federação Espírita Brasileira
http://www.febnet.org.br/blog/geral/colunistas/mediunismo-e-animismo/ acesso em 28/01/2016
Youtube - Morel Felipe Wilkon
vídeo https://www.youtube.com/watch?v=Eo_Gge_ZNok


















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